sexta-feira, 30 de março de 2012

Com a alma na ponta dos dedos



(In Memmoriam de José Américo Roig, o Zeméco)

Um ano se passou e quase ninguém viu
Um ano se passou, como um piu,
Como quem passa os dedos sobre os dias,
Como que enquadrados em telas e molduras...
Há dias que olho para o céu e vejo nuvens brancas pintadas,
Lembro de ti, meu pai, em outras moradas,
Igualmente pintando as nuvens com a ponta dos dedos...
Ainda carrego comigo meus medos, teus segredos...
Receita mágica do bem viver, viver cada dia de forma simples,
Simplesmente por que assim é a melhor maneira
De se conhecer e reconhecer...

Reconheço em mim teus traços em meus rostos,
Relembro em ti meus gostos, em teus agostos...
Recordo-me, meu pai, de seu caminhar descalço,
Calçado apenas com as sandálias da humildade...
Eras muitos em tua unidade:
O homem, o pai, o artista, o menino que quis voar,
Que fraturou perna e cabeça, mas não desistiu de sonhar...

Com a alma na ponta dos dedos, você nos desenhou,
Filhos de um amor à arte, um amor à parte,
Que nunca nos deixou...

Tu és a alma da minha vida,
Quero dar-te vida a tua alma...
Com a alma na ponta dos dedos,
Escrevo meus dias em teus tons e dons.
Cedo ou tarde, a vida nos propõe o eterno recomeçar...

Janelas mortas, telas vivas
Portas fechadas por dentro,
Dentro da cada um
Tortas de maçã nas janelas tortas
Não me importa o que exportas,
Me preocupo com o que te importa...
Abra a porta, não se comporte
Como fosse uma natureza morta
Para pendurar na parede da sala fria...
Por um momento, todas as palavras
São jogadas ao vento...
Por um segundo o mundo teu passa a ser o meu.
Com a alma na ponta dos dedos,
Meu pai pintou o que eu tento escrever...

Observação 1: Poema acima, de autoria de José Antonio Klaes Roig.
Observação 2: Imagem acima, fotografia do artista plástico José Américo Roig (*20/07/1934 +29/03/2011), mais conhecido pelo apelido de Zeméco, pintando em seu ateliê na praia do Mar Grosso, em São José do Norte - RS - Brasil, em 2004, quando deixava de lado os pincéis e usava as pontas dos dedos para pintar as nuvens em seus quadros.