terça-feira, 19 de julho de 2011

O homem que pintava nuvens com as pontas dos dedos


O que falar sobre alguém que mais do que dar-me a vida, deu-me sentido a esta? E de alguém que fez sua vida e obra se confundirem com a de sua cidade? Que comentar sobre quem dizia ter como sua musa inspiradora a própria terra natal, retratando-a durante mais de 60 anos, promovendo resgate histórico de casarios que só existiam em sua memória visual, sendo ele cego de um olho? Sua segunda musa foi a esposa e incentivadora, a profª. Hildette, com quem viveu durante 50 anos. Que narrar de quem perdera a contas dos milhares de quadros que pintara, doando quase a terça parte àqueles que não podiam adquirir? Um ser humano com qualidades e defeitos, mas que fez as primeiras suplantarem as demais, diante de sua simplicidade, alegria e emoção de viver cada dia como se fosse o primeiro
Esse cidadão a que me refiro, e que carrego em parte seu nome, além de tudo, de pai, marido, irmão, tio, avô etc, foi, é e sempre será fonte inesgotável de inspiração. José Roig, o Américo - também conhecido como Zeméco, apelido de menino que tornou-se nome artístico -, era para alguns um iletrado, afinal, sequer concluíra a 4ª série do ensino fundamental, mas para muitos foi um professor, por conta das lições de vida que distribuiu, gratuitamente e a distância, de forma simples mas emocionada, em palestras a alunos, em conversas com visitantes, em passeios e exposições.
Alguns de seus relatos lembram cenas de filme (Cinema Paradiso?), quando ainda jovem, ajudava na projeção dos enlatados nos cinemas de sua São José do Norte. Contava as molecagens, invertendo a sequência da película; passava trote nos colegas de trabalho e nos amigos. Já dizia o poeta Manoel de Barros: “Há histórias tão verdadeiras que às vezes parecem que são inventadas”.
A vida passa como um filme. Para alguns, como um curta-metragem, para outros como um longa. Trago comigo cenas inesquecíveis: De meu pai levar os filhos para empinar pipa no campo do Liberal F.C., e ele, como menino, ficar mais tempo empinando do que as crianças. Recordo-me também de quando subi com ele na torre da Igreja Matriz São José, mesmo local em que meu pai aos 14 anos quis voar e acabou realizando seu vôo acidental do alto de um sobrado, levando um tombo e tendo fraturas; por fim, dele com a ponta dos dedos pintando nuvens em seus quadros. Um pequeno pingo de tinta e de suas mãos brotando arte. Quis o destino que eu me dedicasse às letras e ao texto, e ele às tintas e a textura.
Meu pai não deixou bens, mas sua maior herança foi a lição de vida que nos deixou, de aprendermos a voar atrás de nossos sonhos, mesmo que vez em quando tenhamos que nos estatelar no chão, mas continuar sonhando. Nascido em 20/07, no distante 1934, quis o destino que ele se inspirasse em Santos-Dumont, que nasceu no mesmo dia, e na descida do Homem na Lua, ocorrida na mesma data.
Desde que ele partiu num vôo longo e derradeiro, em 29/03/2011, toda vez que olho para o céu e avisto nuvens, sejam brancas ou escuras, minha meteorologia particular prevê chuvas torrenciais em meu interior. Muitas vezes coloco óculos escuros, mesmo que não tenha sol. Nunca, depois daquele dia o “Pai Nosso Que Estais no Céu” teve para mim tamanha duplicidade. Mas, ao mesmo tempo, fico feliz de constatar a herança que ele me legou e saber que está bem, continuando a pintar às nuvens com as pontas dos dedos, agora, diretamente no céu...
Saudades, seu Zeméco. Feliz aniversário. E obrigado por tudo, por ter me dado a vida, um nome e mais que isso, um sentido ao meu viver...

José Antonio Klaes Roig, educador, poeta e escritor.

http://olharvirtual.blogspot.com (acervo digital do pintor Zeméco)

Observação 1: Artigo em homenagem ao meu pai, o artista plástico autodidata José Américo, o Zeméco, falecido em 29/03/2011, que completaria neste 20/07 seus 77 anos.
Observação 2: Imagem acima, fotografia de Zeméco, em palestra a alunos de escola pública estadual, contando sobre seu voo, quando menino.

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